Acerca do Joker, ainda

Algumas pessoas leram o meu texto sobre o filme «Joker» de Todd Phillips, e ficaram inspiradas por ele. De tal modo que muitas foram ver o filme por causa disso.

(É bom saber que contribuí para o lucro de uma empresa cinematográfica.)

Ainda assim, o filme exerce diferentes opiniões e reacções a ele, coisa da qual não me importo nada. Não estou aqui a vender a minha interpretação como the one and only in da universe!

(Mas é a melhor, a mais bem escrita, a mais espectacular, a mais bem fundamentada, e todos os outros adjectivos que possas encontrar…)

Eis quando o meu amigo e camarada de luta Ricardo Grácio me chama a atenção para a opinião de Slavoj Zizek, filósofo do so on and so on, sobre o filme.

Ora, eu detesto quando aparecem pessoas a escrever melhor do que eu sobre algo que eu já escrevi. Já bastava ter lido boas peças sobre o Joker (aqui e aqui e aqui e aqui), e agora aparece-me este indivíduo a dizer coisas interessantes.

Damm you Zizek! *branda punho no ar ameaçadoramente*

O problema destes artigos é que eles normalmente dão novo alimento para diferentes perspectivas àquilo que uma pessoa já tinha pensado. Por isso posso utilizar o que ele escreveu para ampliar a minha leitura, e aproveitar para salientar aspectos que eu não dei tanta atenção.

Todavia como não tenho o grau de inteligência e articulação que o Zizek tem, sugiro que o vás ler antes de continuares este texto. É provável que não voltes, mas não há problema. Ficas em melhor companhia. *esfrega e resfrega o nariz e ajeita a t-shirt..*

Ora, do pouco que eu entendi do seu texto, aquilo que me pede para confrontar é a radicalização daquilo a que eu chamei de «sujeito revolucionário». E o que está em causa é saber se Arthur Fleck se torna um sujeito revolucionário ou não. A resposta é complicada.

Vejamos. A personagem do Joker foi sempre conhecida por não trazer qualquer tipo de positividade (algum tipo de programa construtivo) para cima da mesa. Ele sempre foi uma personagem que se encontra num primeiro momento dialéctico (identificação com o sintoma e rompimento do encerramento semântico), sem nunca estar interessado no momento posterior. No filme, esse primeiro momento dialéctico só acontece apenas a dois terços do filme, depois de Arthur Fleck atravessar o «nível-zero auto-destrutivo», como escreve ZIzek, quando ele se identifica definitivamente com a condição da sua gargalhada incontrolável e compulsiva.

Este nível-zero é expresso na cena em que Arthur mata a sua mãe, na qual ele diz: «Lembraste de me dizer que a minha gargalhada era um problema, que havia algo de errado comigo? Não há. Ela é o meu verdadeiro eu.»

É só depois dessa destruição do superego maternal, que Joker nasce. Nasce numa manifestação explosiva de negatividade e violência, identificando-se puramente com o sintoma, com o objecto da sua própria alienação. Sintoma esse que lhe permite romper o cerramento semântico do abraço asfixiante maternal da significação instaurada.

Ora, este excesso violento, exposto pelo nível-zero, é análogo ao excesso violento dos movimentos sociais que questionam os fundamentos da ordem existente. Isto é, para movimentos sociais que almejam a emancipação face aquilo que existe dentro de uma realidade neoliberal que se impõe como única e definitiva, só experienciando esse nível-zero desses sintomas capazes de nos dilacerar e abrir um possível excesso de violência, é-se capaz de romper essa realidade.

Ainda que essa violência não seja necessariamente uma violência física, ela tem de existir no entanto como um rompimento, como uma certa brutalidade, numa violência ideológica que se torna necessária, uma violência de pensamento, uma violência contra ilusões e sobre-simplificações, uma violência ao dogma económico, uma violência da alienação instituída, uma violência do desespero contra o sistema político-económico existente.

Aliás, este era o medo (e desejo) dos meios de comunicação tradicionais e certas instituições norte-americanas: que houvesse incitação à violência por causa, e através, do filme. Na, na, na, na, na.. nunca existiria uma incitação à violência com este filme. A violência a existir, e que efectivamente existe, é uma violência que já se encontra por debaixo dos contínuos ataques económicos feitos às pessoas e populações, mas não de pessoas solitárias representantes dos medos irracionais dos meios de comunicação norte-americanos.

Não é por acaso que manifestações violentas em vários países (que ocorrem ao momento da escrita deste texto), no Chile, Equador, Iraque, Hong Kong, entre outros, são do meu ponto de vista, a clara manifestação das brechas na contínua pressão totalizante neoliberal.

Mas voltemos ao texto.

Zizek escreve que a elegância de atravessarmos esse ponto-zero destrutivo é a criação de um «novo desejo» pela mudança, pela transformação. E essa é a questão do Joker. O seu processo dialéctico é um processo que suscita um algo diferente a acontecer.

Todavia, no final do dia, ele é um vilão.

Ele personifica a irrupção da violência contra um sistema, mas é ausente de projecto político positivo emancipatório, apenas «um novo líder tribal sem programa político», mais do que uma potencialidade universal.

Do meu ponto de vista, ele é um ausente da Ideia. Ausência essa que, escreve Zizek, teria de ser preenchida pelo espectador.

(É interessante Zizek escrever este comentário ao filme, porque ele precisamente é muito semelhante àquilo que ele descreve. Ele envolve-se em várias polémicas teóricas e, ainda que tenha uma orientação política demarcada, é difícl perceber qual o projecto positivo que ele propõe. Eu, pelo menos, depois de o ler e ouvir o que ele diz, fico sempre com a sensação de que estamos a ir de mal para pior, e que a única coisa que podemos fazer é agarrarmo-nos ao nosso pessimismo. Todavia, esta leitura pode ser fruto da minha própria ignorância.)

Ora, eu diria que essa ausência não pode apenas ser preenchida pelo espectador assim, sem mais. Essa ausência tem de ser preenchida pela articulação do desejo de uma Ideia. Eu declaro que terá de ser uma Ideia de Comunismo. Uma Ideia que exige uma fidelidade que o Joker claramente não transporta consigo.

Uma Ideia que consiste em afirmar a actualidade da potencialidade igualitário-emancipadora, olhando para a sua história sem ilusões. Mas compreendendo, ao mesmo tempo, que ela própria excede o seu próprio tempo, numa eternidade que nos permite confrontar a Ideia com a sua actualidade corrente, numa nova e diferente condição histórico-material.

O problema das manifestações violentas por todo o mundo expressa-se na incapacidade que elas têm de colher o potencial de realmente transformar as coisas, de realmente romperem com o status quo económico-ideológico. Porque sem algo a propor que seja efectivamente universal, estas manifestações irão cair no reforço do status quo, ou pior, na intensificação do status quo.

Sem uma alternativa positiva nós recaímos como vilões agindo em detrimento e por vezes contra a própria Causa que suscitou essas mesmas crises.

Se calhar devíamos aprender mais com o principal inimigo do ser humano — o neoliberalismo.

Como doutrina político-económica, esta, de certa maneira, começou em 1947 quando Frederick Hayek, economista austríaco, fundou a Mont Pelerin Society. Um colectivo que serviu como uma espécie de «internacional neoliberal», uma rede transatlântica de académicos, empresários, jornalistas e activistas, que desenvolveram diversos think thanks, e que, bem financiados, propuseram-se a refinar e a divulgar a sua ideologia.

Mas foi preciso uma crise na versão capitalista dominante depois da Segunda Grande Guerra, a doutrina Keynesiana, (e um golpe de estado no Chile), para que essa nova doutrina entrasse em acção. Depois de décadas a implementar-se em vários sítios nas universidades e na educação em geral (através de instituições «filantrópicas»), eles estavam prontos para fornecer e articular uma alternativa político-económica ready-made aos governantes por todo o mundo.

O mesmo deve acontecer com a persecução da Ideia. Devíamos tomar a sério o dictum político de «nunca deixar uma crise ser desperdiçada» na medida em que estaríamos preparados para dar uma resposta ou ter uma resposta a essas crises.

E qual é a resposta a estas crises? O exigir do impossível. O exigir o impossível da Ideia. Exigir o ir para além do limite do senso-comum (congelado e constrangido no horizonte de realismo capitalista), e olhar para o que está além. Este além só pode ser compreendido tendo fé, tendo fé em causas que parecem impossíveis.

Como escreveu Sousa Dias no seu livro Zizek, Marx e Beckett: «Exigir o impossível. Expressão contraditória? A ciência e a tecnologia – para não invocar também a arte – confrontam-nos a cada passo com o impossível, com exemplos de realização do impossível. Todos temos a percepção de que, em termos quer tecnológicos quer científicos, o impossível não existe, ou de que a impossibilidade de ontem é a realidade de hoje. Todavia recusamos bizarramente essa perspectiva em termos sociais, lá onde tudo depende apenas de nós, do nosso poder colectivo, da nossa vontade objectivada sem mediações expropriadoras como vontade comum, quer dizer, como soberania do demos, Democracia por vir (…). Talvez um dia superemos essa distância que nos separa de nós, do nosso poder comum, da nossa força instituinte, e possibilitemos essa Democracia. Só nesse dia é que Marx o intempestivo deixará de ser nosso contemporâneo.»